domingo, 29 de agosto de 2010

Uma pá de devaneios

Fundo é palavra que não dá pé.

Vazio é palavra feita de ar.

Cheio, se tivesse acento, transbordava.

Chão é palavra leve, que suporta mais peso que formiga.

Cada letra de parede, é um tijolo.

Para minhas esquizofrenias, costumo frequentar sessões de terapia gramatical.

Para o poeta, o importante é o ladrilho que falta na calçada.

As raízes das árvores, às vezes, causam calos nas calçadas.

As trajetórias oculares nem sempre são retilíneas, porque as colmeias são feitas de cera.

E quando o cérebro mergulha no prazer, o mundo se transforma.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Beber, comer, digerir

Beber
Havia uma menina morando naquela árvore, desde há muito tempo.
Ela era a detentora da eternidade. Descobriu a fórmula aos dezesseis anos.

Desde então, resolvera habitar a árvore. Porque era egoísta e queria ser menina para sempre.
Um dia, um belo rapaz, que havia viajado muito, muito, muito, resolveu descansar ao pé da árvore. A menina teve um susto. Vários anos se passaram que alguém resolvia parar naquele caminho.

Enquanto o rapaz dormia, ela aproximou-se curiosa. O rosto era bonito. A menina sentiu que alguma coisa estava diferente.
Quanto mais observava o rapaz, mais diferente ela se sentia. Todo ele era bonito. Medrou.

Lembrou-se da fórmula. Voltou para protegê-la. A menina não contava que essa sensação diferente fosse ser tão insistente, que mesmo longe do rapaz ela continuava ali, mostrando que existia.

Ela percebeu que o rapaz estava despertando. Parou na frente dele.

Faz quatorze anos que eu vivo nesta árvore. Eu descobri a eternidade, mas sou egoísta e decidi tê-la só para mim.

O rapaz não entendia. Mas decidiu ficar ali até a menina terminar de falar. Estava curioso.

Quando te vi, lembrei de um tempo em que eu sonhava. E lembrei de como eu me sentia feliz naquele tempo. E decidi que eu quero dividir a minha eternidade, seja ela pelo tempo que for.

A menina trazia consigo uma pequena garrafa com as raras gotas da fórmula. A cada gota que ele bebesse, ela deixaria de continuar sendo uma menina. E ela sabia disto.

Sem pestanejar,entregou ao rapaz uma pequena garrafa com as raras gotas da fórmula.


Comer
Um canibal bateu em minha porta. Era um tipo sexy, destes que se escondem sob os óculos. Me contou uma história bonita e eu o convidei para entrar.
Ai que sedução! Ai que abuso!
Comeu meu cérebro, que assim passou a funcionar lesado. Mandou uma ordem direta para o meu coração.

Apaixone-se! Bradou o cérebro taxativo.

Descobri mais tarde que não eram as partes não comidas do cérebro que haviam emitido tal sentença. Foi a saliva do canibal que envenenou meus pensamentos e obrigou meu coração a oferecer a ele meu corpo inteiro para mais um banquete.

Digerir
E agora bonito, que eu faço?

domingo, 15 de agosto de 2010

Longitude 3° 15' 0" E

Desvio
Eu tenho uma dor que me consome.
Essa dor me some. Não soma. Me faz sumir aos poucos.
Me come. Corroi, corrompe. Não assume. Apenas some.

Tem uma viga no meio da sala. E tem a dor, que se esconde.
Faz um jogo. Mostra-esconde.
Cabra-cega, gato-mia. A gente joga. A gente brinca.
Ela me pega, bruxa-da-cola. Ela me prende.

Bate na minha mão? Me liberta.
Tem meu pensamento. Joga também.
Eles competem.

Só eu ganho no final.
E ganhar é perder. Te deixar ir.
A dor é o meu pensamento que te quer.



Incandescências. Chamas.
Indecências. Fogo.
Decências. Queimaduras.



Online
Eu e as duas pessoas mais chatas do mundo: o tédio e a insônia.


Insônia
Eu e as palavras num diálogo descontínuo. Profilaxia, asfixia, crença, romance, negação. Figuras de linguagem vestindo lingerie passeavam no meu quarto e faziam boquinhas para o espelho. Travestis. Um consolo. Vibrou na sinapse, explodiu. Tomei um rivotril, não tomei banho.

Li um livro. Minhas palavras combinam melhor, são mais sagazes. Algozes de mim. Gozes, quero que tu. Em mim.

Pega um avião e desce na minha cama. Monto uma pista, maior que um metro e noventa. Cabe em mim. Não me caibo mais. Estou aí.

Minha alma clandestina, com destino. Definida. Finda a ida. Cheguei, bonito.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O marido perfeito é virtual? Quase...

Nestes dias de frio tão arrebatador tenho me dedicado a extensas horas de trabalho sobre a cama. É isso mesmo, sobre a cama, em cima dela, usufruindo todas as molinhas e edredons quentinhos disponíveis na minha casa.

Isso só tem sido possível graças ao querido kit notebook+internet que me acompanha.

Ele é um marido praticamente perfeito. Converso com pessoas (queridas ou aquelas que fazem eu passar meu tempo), pago contas, peço comida, vejo filmes, ouço música e ele ainda esquenta as minhas pernas enquanto faço tudo isso.

Tá bem, no forte do inverno, ficar debaixo das cobertas é um sonho de consumo e eu to aqui me exibindo com as minhas possibilidades.

O kit é um marido quase perfeito sim, mas eu afirmo, nada substitui o beijo na boca... a pegada, sabe?


Xiii perdemos a garota... interna por favor? Ah no google é só digitar: clínicas e histeria.