quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Resgate da Memória

Eu não gosto quando as pessoas falam em projetos para resgatar a memória. Por quê? Ela foi sequestrada? Daí eu escrevi essa coisinha aí...

Pobre da memória.
Estava andando na rua, bem bela, voando as tranças, distraída.
Parou uma moto e sequestrou a guria.

Perdemos a memória.
Foram longos e difíceis dias até o primeiro contato dos sequestradores.

Pobre memória.
Onde estaria? Dormindo num colchão sujo num barraco qualquer, em uma favela qualquer? Estaria sendo bem alimentada? Estaria ainda íntegra, já que é tão bonita e sempre despertou o desejo dos mais esquecidos...

Recebemos uma pequena caixa. Era um pedaço da orelha da memória, em sinal de que ela estava viva.
Pobre memória, agora mutilada.

Nossa surpresa com o pedido de resgate: fotos, cartas, discos rígidos, cds, dvds, pendrives, chips de celulares, revistas, jornais, souvenirs de pequenas e grandes lembranças.
Que ridículos!

Foram dois intensos dias recolhendo uma série de coisas pela casa.

Remexer estas lembranças foi bom e ruim. Sádicos sequestradores.
Pobre memória, sozinha, com medo.

Mentira! Nos pregou uma grande peça. Fugiu para chamar a atenção. Bem putinha.
Bem coisa dela, que às vezes, quando a gente mais precisa, resolve se esconder.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Minissaia de alfabeto

Textos curtos são como as saias curtas... Delineadas as frases, delineadas as pernas. Quanto menos palavras, mais bem escolhidas elas foram para formarem um contexto.

Para sair de saia curta na rua eu costumo depilar e passar creme nas pernas, para escrever textos curtos eu costumo utilizar a parte esquerda-sudeste do cérebro (eu não a utilizo em outras ocasiões) o que equivale a uma depilação.

Os textos curtos são um ritual.

Para completar o visual da saia curta eu coloco uma sandália de salta agulha, é o meu ponto final - sussurro: um ponto de exclamação.

Nas linhas, o tempo

Quando eu era pequena achava mágico que se pudesse ter o destino traçado nas linhas das mãos. Ficava horas, praticamente autista, observando as minhas linhas.
Mão direita, mão esquerda, pequenos emaranhados que me diziam nada.

Traços finos que foram se tornando vincos, marcas profundas de dores agudas e felicidades supremas, todas a seu tempo.

Muito mais que as mãos, vejos as tímidas rugas que vem se achegando no meu rosto, como uma criança envergonhada que se esconde atrás da mãe. Insistentes fios brancos têm criado colônias e fincado bandeiras em seus territórios conquistados.

Estou amando me envelhecer.