quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Abiogênese de um mendigo.

Relato baseado numa história real.

Adotei um cão e arrumei uma bela cama e um asseado banheiro pra ele na área de serviço do apartamento. Nos primeiros dias, o cão, ainda desacostumado, seguiu instintos primários e demarcou TODAS as peças da casa com suas fisiologias abundantes.

Bem, depois de umas semanas de desespero pelos móveis e carpete, e de quase vômitos ao limpar as fezes espalhadas por aí, através de um disciplinado adestramento, baseado em técnicas comportamentais ditadas por especialistas no assunto*, o cão aprendeu a cagar e mijar no jornal que ficava na área de serviço. Além disso também obedecia aos comandos senta, deita, passa (sai daqui).

Durante a noite, algo que foge à compreensão humana acontecia recorrentemente fazendo com que o cão cagasse e mijasse uma quantidade o equivalente a dois ou três dele.

No princípio dessa nova configuração, foi observado o aparecimento de moscas, que saíam inclusive de dentro do saco de lixo em que era depositado o jornal sujo. Num segundo momento, além das moscas, notou-se o aparecimento de outros insetos, como abelhas. De fato, as fezes e a urina geraram um grande número desses insetos que, depois de atingirem a idade adulta tinham seu senso de liberdade ativado através do olfato, acionado com o cheiro do Ajax Lavanda e assim voavam para a rua. Criacionisticamente falano, o Ajax Lavanda é o catalisador/acionador genético do instinto de liberdade de invertebrados voadores.

Numa manhã qualquer, além do já habitual movimento de cão/animaisvoadores/ajaxlavanda/cheirinhodenovo, vi um mendigo sentado entre o tanque e a máquina de lavar, ao lado do saco de lixo dos jornais sujos e das roupas por lavar. Ele ainda não falava, estava mal-formado. Coloquei um pote com água e outro com comida, afinal, mais uma vida surgia dentro de casa e enquanto ele não criava asas para ganhar o mundo, as ruas, era eu a responsável por este novo ser. Criacionisticamente falano, roupas sujas, fezes de cachorro, moscas e abelhas, produtos de limpeza e prendedores de roupa geram mendigos.

Aristóteles já defendia essa ideia há mais de dois mil anos quando dizia da existência de princípios ativos em matérias inanimadas. Ele não estava de todo errado, mas não levou em consideração a interferência de seres já vivos como cão/mosca/abelha. Talvez naquela época também não existissem prendedores de plástico.

Enfim, a interação entre mendigo e cão foi instantânea. A interação entre mendigo/cão e moradores foi imediata. Adotei este também. Passados alguns dias, ficou claro que a convivência com o mendigo se tornara muito mais aprazível do que com o cão. O mendigo não só atendia aos comandos senta, deita, passa, como também tomava a iniciativa e buscava cerveja na geladeira. Ouvir suas teorias prógênicas sobre a vida e a morte era um deleite.

O cão se foi. Resolvi ofertá-lo no mercado livre e rapidamente uma família o readotou. O mendigo cresceu e descobriu a pós-modernidade ao observar a negociação virtual de adoção do cão. Com muita dor nosso mendigo criou asas e voou para a liberdade. Viciado em Ajax Lavanda já não era mais possível conviver com um ser inquieto, que ansiava o conhecimento que só a rua poderia oferecer. Nosso mendigo se foi, mas virtualmente ainda faz parte da nossa humilde existência e nos deixa diariamente compartilhar de suas novas experiências através do site www.mendigogame.es

Se você não tem as condições ideais para que espontaneamente seja gerado um mendigo em sua área de serviço, experimente site e crie o seu!



*sessões com a Dra. em Psicologia Animal Ceres Feqsion.

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