sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

E o nanismo salvou Agnaldo

Agnaldo tinha uma ideia. Ela não era fixa, era móvel. É... móvel. Fixa seria assim: se ele entrasse no banheiro, e somente no banheiro, ela surgiria. Mas essa não. Ela era móvel.
Ele trancava a porta de casa e ela aparecia. Ele subia no ônibus, ela corria e subia junto. No trabalho,na hora do intervalo, ela surgia até na xícara de café.
Agnaldo estava desesperado. Se fosse uma ideia ruim já teria ido embora, estava certo. Essa não. Ela era constante. Não permanente, apenas constante.
Resolveu ignorá-la.
De nada adiantou.
Subia as escadas carregando as sacolas do supermercado, logo atrás ouvia o salto alto de sua ideia martelar fundo no ouvido.
Rendeu-se.
Estava no parque, sentado na grama, tirou inclusive as meias, jogou a cabeça para trás.
Ela criou forma.
Recompôs-se.
Correu até em casa. Não se demorou.
Vestiu a capa de chuva, anoitecia sem chuva.
Caminhou todos os passos que precisava. O portão estava aberto como havia imaginado desde o princípio.
Subiu dois andares e procurou pelo 203. Não havia 203.
Pensou rápido. Um 202 não seria tão mal. Talvez sua miopia não o tivesse deixado visualizar o número correto enquanto tudo era ideia.
Apertou a campainha. Nada.
Abriu a capa, olhou para os lados. Lentamente, colocou a chave universal, que veio no kit detetive que havia comprado dias antes.
Girou a maçaneta. Olhou as fotos nos porta-retratos.
Ninguém em casa.
Apenas um gato. Contentou-se. Matou-o. Um tiro com silenciador. Saiu correndo.
Vomitou duas quadras depois.
Qual foi sua sorte. A velhinha do 201 ouviu toda a movimentação e o tiro surdo, mas era nanica e não alcançava o olho mágico.

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